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Cartão de crédito impulsiona o calote



O avanço no uso do cartão de crédito, que segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) passou de 48% em 2008 para 53% em 2011, está diretamento ligado ao aumento da inadimplência. Pesquisa divulgada pela Boa Vista Serviços, que administra o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) revela que, em junho, o cartão de crédito foi, para 31% dos entrevistados, o principal responsável pela alta do calote. Em maio, o Banco Central (BC) divulgou que o índice de inadimplência da pessoa física atingiu 8%, patamar mais alto desde 2009.
 
Até pouco tempo, ao parcelar uma compra, o consumidor constantemente recorria aos cheques e boletos bancários, modalidades de pagamento que não dão garantias ao empresário. Com isso, um número cada vez maior de estabelecimentos comerciais opta por arcar com a porcentagem cobrada pelas administradoras, que varia de 2,5% a 5%. Para evitar prejuízos, os cheques são cada vez menos aceitos. A Abecs informa que as transações efetuadas com esta forma de pagamento recuaram de 7%, em 2008, para 3%, em 2011.
 
A Abecs projeta que, até o fim deste ano, 193,2 milhões de cartões de crédito devem estar no mercado, o que supera a população brasileira estimada em 190.732.694, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "A expansão da ferramenta desencadeia naturalmente um aumento da inadimplência. Mas a tendência é que, com o passar do tempo, o crescimento seja menos expressivo, pois tanto administradoras quanto consumidores devem controlar melhor as emissões e o uso, respectivamente", avalia o economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo.
 
Para ele, a alta da inadimplência, sobretudo via "dinheiro de plástico", não significa necessariamente o início de uma crise. Além disso, Solimeo ressalta que o crédito facilitado ainda é algo recente para a classe média em ascensão. Assim, a partir do momento que sua utilização passa a fazer parte do cotidiano, a população deve aprender a empregá-lo de maneira mais consciente.

Conveniência - Além disso, dois fatores estreitam a relação entre inadimplência e "dinheiro de plástico": acessível e conveniente, ele chega à casa do consumidor muitas vezes sem sequer ser solicitado, embora tal prática seja proibida por lei. "Existe, por parte dos bancos, uma ampla oferta de cartões e não acredito que a inadimplência em alta tenha como conseqüência direta a redução imediata do número de emissões", salienta Solimeo.
 
As contas em atraso muitas vezes não são suficientes para inibir as instituições financeiras, devido aos encargos que recaem sobre aqueles que atrasam o pagamento ou optam pelo pagamento mínimo, de 15%. Pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) revela que a taxa média de juros do cartão se manteve em 10,69% entre fevereiro de 2010 e junho de 2012, a mais alta dentre as linhas de financiamento. Em seguida, aparece outra bastante requisitada, o cheque especial, 8,22% ao mês.
 
"As duas linhas de crédito mais fáceis, cartão de crédito e cheque especial, são também as que têm as maiores taxas. Com isso, o consumidor, principalmente aquele que nunca teve acesso ao crédito e tem mais necessidades de consumo, passa a comprar por impulso e se embola em uma quantidade de prestações que não consegue quitar", analisa o diretor de estudos econômicos da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira.

 

Segundo a Abecs, o universo de consumidores que pagam juros no cartão está diminuindo. Atualmente, cerca de 70% da carteira de crédito de cartões vêm de compras sem juros. Dos 30% restantes, menos de 40% vêm do crédito rotativo, linha que cobra os mais elevados encargos. Dados do Banco Central (BC) mostram que a inadimplência do cartão se manteve estável nos últimos anos, permanecendo em 8,6% em maio de 2012, considerando todas as operações. Porém, quando avaliadas apenas aquelas com juros, houve crescimento, devido, sobretudo, à redução proporcional deste tipo de operação. No quinto mês do ano, elas se mantiveram em 29,5%.
 
(Fonte: Diario do Comercio - 17-7-12)
Imagem: divulgação Google